Toda palavra é pouca pra contar dos tempos em que minhas críticas ao material de trabalho se resumiam em "nossa, Faber Castell é MUI-TO melhor que Labra". Mamãe odiava Labra, e se ela odiava a Labra, a marca de lápis devia ser mesmo muito isso e aquilo, e todas aquelas coisas erradas que ela sempre apontou muito bem.
Saudade, depois, de quando eu passava horas, sem hipérbole, vigiando o céu azul e lindo de Volta Redonda, da varanda, cortado por fios, e sabia que aquilo era uma vida boa que um dia iria acabar e deixar saudades. Da mesma janela, à noite, a luz forte do poste da ponte velha pintava as paredes da sala, e com as janelas se formava um desenho geométrico interessante, e com a luz da sala apagada eu dançava acompanhando minha silhueta.
Me lembro ter visto o maior amor de todos na rua, parando o carro, os olhares assustados dos dois, que não faziam o que sabiam, não sabiam o que faziam, não sabiam o que fariam. Tenho a melhor noite da minha vida mais nítida que este teclado em que bato agora, e sei que foi a melhor por mim e por ele, mas ainda mais por ser a primeira.
Não sei mais dele. Tentamos, depois, mas desandou. Era preciso o baile à fantasia sem fantasia, e as primeiras tequilas com sal da vida, e a primeira vez em que um homem me falava em sexo de verdade, que não aconteceu então, mas quando a noite finalmente desistiu, o sol veio e nada ficou pálido, e pedi pelo lugar mais alto. E foi o Portal da Saudade - às vezes penso na ironia desse nome que parece ter aberto o maior portal de saudades da minha vida, que era tão Lucy Harmon, ainda tão Lolita, tão Natalie Imbruglia e tão todas as minhas meninas dos livros e filmes que eu amava.
Eu reclamava da vida chata naquela roça, mas não poderia imaginar que o Rio era uma grande fantasia com cores de cartão postal, e que eu sofreria discutindo com uma RH do Globo que faltou me bater num bar porque eu disse que a prova era bairrista. E que um homem de 50 anos me xingaria aos berros num banco como nunca vi nem nunca verei um senhor fazer em outro lugar que não o Rio. E que é no Rio que as pessoas gritam no ônibus, no metrô, nas filas, em todo lugar, sempre por motivos ridículos de tão ínfimos.
Depois passei a ser blasé, relevei tanta coisa… e aí fiquei nesse limbo, meio perdida entre o que fui e não posso nem quero mais ser, o que sofri e cresci e para onde eu vou, que não sei. Mas passei a desconfiar que o lugar certo, o meu lugar, é quando eu estiver feliz e tranqüila. Quando eu estiver amando que não precise me lembrar do homem do cavalo branco que vi da janela, ao lado do "amocê" que ela havia pixado na rua pra ele.
Era para ser um tópico feliz contando do sofá da Oscar de Almeida Gama, que foi a casa com mais cara de eu em que já morei, por todas as dores e descobertas, pela Liv Tyler como Lucy, por todos os quase 40 filmes bons a que assisti no 3º ano para não enlouquecer com a Matemática e a História, pelas festas que, bem ou mal, existiram lá mais do que aqui. Pelas reuniões com as amigas do colégio à tarde, parceiras infinitas da vida no colégio, apesar de só 3 - além de mim. pelas árvores de Natal mais lindas e criativas que uma mãe já fez na terra e pela porta do quarto, assinada por amigos de cima a baixo, e outro dia um deles perguntou o que havia sido feito da porta dos recados.
Foi feito mais ou menos o mesmo que se fez comigo, Elton.
Passaram algumas mãos de tinta ali sobre o passado, mas os recados ainda estão por dentro, gravados com caneta de retroprojetor. E essa, vocês sabem, não sai por nada.
